.Virgínia Rodrigues na Bimhuis.

No meu canto, uso tudo que tenho!

Com Arnild Van de Velde e Margô Dalla-Schutte

Fotos Margô Dalla-Schutte


A alfazema tem a ver com a minha religiosidade. Quando entro no palco, gosto de chamar todos bons fluidos; chamo meus Orixás: minha mãe Iemanjá, minha mãe Oxum, as Iabás. A alfazema pertence às Iabás e eu gosto de usá-la para chamar minha mãe Iemanjá, Oxum, minha mãe Nanã – todas elas para ficarem perto de mim. A alfazema é usada para ungir o caminho e para proteção espiritual.” (Virgínia Rodrigues).

Virgínia veio com tudo

De ombros cobertos por um xale amarelo, a cantora baiana Virgínia Rodrigues subiu ao palco da Bimhuis, conhecida casa de shows de Amsterdã, na noite de sexta-feira, 10 de julho. Em respeito a seus guias espirituais, passou o perfume sagrado nos braços, no microfone e seu tripé, deixando no ar um delicioso aroma da seiva. “A nova voz da música brasileira” , como foi chamada em artigo do New York Times, esteve na Holanda participando do The Brazilian Summer Sessions 2009, um festival de música promovido pela Fundação A Hora do Brasil – entidade cultural dos Países Baixos fundada por duas imigrantes brasileiras, a também baiana Neyde Lantyer e a brasiliense Cláudia Trajano. O festival trouxe em outras edições grandes nomes da música popular para se apresentar na Bimhuis. Entre eles, Tereza Cristina, o baiano Lazzo Matumbi e Martnália. Neste ano, 2009, já se apresentaram Marcos Sacramento, Hamilton de Holanda e Virgínia Rodrigues - que encantaram as platéias, sempre lotadas, na terceira edição do festival.

Cláudia Trajano e Neyde Lantyer da Fundação A Hora do Brasil

Virgínia, que no mundo material tem entre seus guias Caetano Veloso, é uma presença forte. Sua voz é de fazer bolar, como se diz do canto que leva ao transe, no Candomblé. Hipnotiza pelo conjunto de sua performance: voz poderosa, olhar penetrante e mãos sinuosas, que conduzem a audiência pela magia e encantamento de sua leitura afro-baiana da MPB. No repertório para a Bimhuis, Vinicius de Moraes e Baden Powell. Cantos de Iemanjá, Ossanha e Xangô, na companhia dos músicos Alex Mesquita (violão) e Ronnie Scott (clarinete). No auge, a platéia em êxtase, ao som de “Esse seu Olhar”, de Tom Jobim.

Lá vai, lá vai, labareda

Oh, labareda te queimou
Lá vai, lá vai, labareda

Oh, labareda te matou
Lá vai, lá vai, labareda….

Em Vinicius de Moraes, Virgínia Rodrigues encontrou as palavras certas para se despedir do público, com os pés literalmente no chão. Foi-se em uma labareda, deixando os sinais de sua passagem, do seu status de “o que há de novo” na música do Brasil, um novo que nem tão novo é assim, já que Virgínia é uma artista com história comprida. No cinema, ela interpretou a irrepreensível “Bioncê” (uma caricatura da cantora americana Beyonce Knowles), de “Ó pai ó”, filme de Monique Gardenberg sobre uma Salvador que muitos negam, mas todos sabem que existe.

Canto de fé


Rodrigues não gosta de citar influências, lhe soa caricatural. “É óbvio que tenho minhas preferências, mas daí a querer imitar alguém é diferente”, explica ela, fã de Maria Bethânia e ouvinte de Eliana Pittman e Elis Regina. Foi porém cantando Agnaldo Timóteo, numa festa do Dia das Mães, que Virgínia estreou publicamente. “Mamãe estou tão feliz, porque voltei pra você…”. Aos seis anos, na escola. Para cantar, ela se deixa levar pelo que sente.

Uma mulher que segue seu dharma, Virgínia manifesta por meio da arte a herança dos antepassados. “Sou negra e do Candomblé”, afirma a que também já foi católica e protestante. Ainda criança ouvia a avó entoar os cânticos das missas. Não o sermão, mas a música a fazia encontrar o caminho das igrejas.

Da religiosidade adveio a experiência em corais. Cantou, entre outros, no prestigioso Mosteiro de São Bento, em Salvador. Na Câmara de Música da Bahia, em coros diversos. Cantando, aprendeu a cantar, usando a voz rica em graves e agudos (Virgínia é mezzo-soprano).

Essa é a minha formação e eu uso tudo que aprendi nos corais, na minha infância, tudo que aprendi na minha adolescência, minhas origens, minha fé. Uso tudo!”.