Nilza Silva: Do quadro à tela: uma arqueologia da contemporaneidade.
O trabalho de Nilza Silva nos coloca diante do desenquadramento da arte e da contemporaneidade. Por um lado, o uso da técnica da pintura que para alguns estaria fora do quadro da arte na atualidade, e de outro o uso de mediações tecnológicas junto ao próprio ato de pintar,o que insere seu trabalho no momento presente.
Sem temer referências clássicas e modernas, Nilza transita por colagens, fotografias,imagens de sínteses,como uma arqueóloga de imagens, produzindo “telas” em que reconhecemos o passar do tempo da história da arte em meio à sua história pessoal. Ao colocar em cena seus belos “Estudos” de Vermeer, Matisse, Pino d’Angelico e Murillo, diferentemente da cópia,da citação ou da paródia,estes retornam como traços, ruínas, em alguma escamação do imaginário da artista tornando-as vivas em nossa memória.
A artista torna também visíveis situações íntimas, femininas, quase clichês,que por si se afirmam presentes em nossa ocidental imaginação. Como um vestígio, “A Tristeza” aparece através das linhas do corpo de uma mulher sentada,de perfil, com a cabeça entre os braços. Em situações públicas, políticas,como “Brasil,mostra sua cara” a artista pinta silhuetas de pessoas,sem face,anônimas, que se tornam camadas de silêncio. A este,a artista oferece em meio à tela palavras como gritos de resposta. Nas escavações de Nilza, “A Tarde” aparece como um sopro abstrato de poesia, libertando a história de seus anacronismos. O que se coloca não é a questão da pintura,técnica que a artista domina com presteza, e sim o encontro entre arte e imagem que é celebrado em suas telas.
Isso é enfatizado na série “Linha do Tempo”,onde ela nos oferece primeiramente a “Infância” dos anos 50. Sua presença se dá através de fotos pessoais,pintadas ou não,coladas com band-aid, que se misturam aos desenhos de jogos de amarelinha e os traçados daquele que conhecemos como da “jogo da velha”. O uso das palavras “UNIDUNITÉ, SALAMÉ, MINGUÉ, UM SORVETE COLORÉ, UNIDUNITÉ” com letras muito coloridas, pintadas como giz, traz à tona as palavras como parte de seu corpo e acentuam o que a tela nos faz ver:o tempo.
Em “Anos 60″, a imagem obscura da “Adolescência” e suas inquietações viscerais são visíveis na frase “QUERER OU SÓ SER”,assim como na foto de um rosto quase invisível, mas com olhar penetrante que surge entre as camadas de tinta e as impressões de páginas de livros. Estas materializam a sensação de corpo e alma que se fundem na busca de sentido em amarelo e vermelho.
Já nos “Anos 70″, a imagem fotografada de um corpo em pé repetida diversas vezes, em meio a cores pop e formas psicodélicas juntamente às palavras stress, nos oferece a visão de uma mulher imersa na cultura da época, em “Dúvida” de seu próprio caminho.
Nos “Anos 80″, a força da natureza feminina e a doçura de ser mãe da Maria Clara fazem com que o corpo e alma de Nilza se configurem na pintura de lírios brancos, hortênsias, rosas e borboletas. A inscrição da frase “Santa Clara clareou”, complementa a saudação ao porvir.
Este emerge na intensidade trepidante dos “Anos 90″ em uma pintura-colagem que remete ao cubismo sintético,em sua potência de movimento e variações de pontos de vista. Sim ou não? Abdicações? Em nome do outro? É com ardor que impressões quase ilegíveis de letras e flores dão corpo à imagem das páginas folheadas e falhadas de um livro.
Enfim, este corpo ressurge incorporado às falhas, translúcido em tons de azuis e rosas, vigoroso nos “Anos 2000″, delineado do pescoço às pernas,separado do texto que pensa,pensa, pensa, sob a idade e o signo de Aquário. Maturidade ou renovação? O futuro e o acaso como camadas, se sobrepõem aos temas, às palavras e às texturas. Mais uma vez é o tempo que se propõe a aparecer nas telas.
Ao escavar resíduos de sua história utilizando meios e linguagens visuais, os trabalhos de Nilza Silva propõem à contemporaneidade a potência de trazer à superfície imagens e transformá-las em poesia sintetizados na pintura “Não temo”, onde o corpo, a cor,a linha e as palavras aparecem como tranças temporalizadas, inventando-se como passado e futuro, interior e exterior, carne e pele, corpo e alma, texto e imagem. Rio, setembro/2009
Denise Trindade
Designer pela PUC/RJ e Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ. Professora da Universidade Estácio de Sá , nos cursos de graduação em Comunicação e Design Gráfico, ministra as disciplinas Semiótica e Estética e Arte Contemporânea. Também leciona na pós-graduação em Artes Visuais.

