Bea Correa
A Guerrilheira do bom humor
por Margô Dalla-Schutte - fotos e texto
Quer trazer a consciência do que vestir e consumir. Acredita que uma palavra em uma camisa é o suficiente para provocar uma pequena/grande revolução. Bea crê que a melhor arma é o humor.

Formada em Direito pela Universidade de São Paulo, moradora de Amsterdam há 20 anos, estudou Design Gráfico na Gerrit Rietveld Academy por 5 anos. Para ser admitido na Rietveld Academy, os estudantes devem ter uma mente aberta, capazes de auto-reflexão e de desfrutar de troca de idéias. A academia tem por objetivo desenvolver ainda mais estas qualidades e desafia os alunos a questionar constantemente as coisas.
Projetos urbanos e contemporâneos. A designer discute temas atuais, que são tabu e ninguém ousa tocar no assunto. Como Deus, produtos falsificados, carros ocupando calçadas etc…
No Basílico, um charmoso empório/restaurante italiano no Jordaan, um dos mais antigos e gostosos bairros de Amsterdam, conversei com a designer sobre seu trabalho e função. Bea equilibra de forma genial, a urbanidade da vanguarda com sutis toques retrô. É preciso talento para saber divertir e comunicar e a artista harmoniza muito bem a informação que quer passar e seus problemas de função. Na foto abaixo, estávamos fotografando na rua do Basilico, quando apareceu este simpático cidadão e se juntou à foto.

“Percebi logo que seria muito complicado aprender perfeitamente o holandês. Entendi que seria sempre uma estrangeira e que precisava fazer alguma coisa diferente. Sou uma pessoa de comunicação-, sempre gostei de escrever, mas com a barreira da língua, pensei em comunicar de outra forma; então resolvi usar as imagens, porque imagem é linguagem universal. Iniciei o curso de Artes na Rietveld Academy, mas como sempre fui ligada a texto, acabei indo para o lado do design gráfico.”
Loja virtual - o playground de Bea
“Fiz 5 anos de Design Gráfico. Trabalho para clientes, faço web design, identidades, flyer, tudo que um design faz, mas tenho uma loja - meu playground virtual, onde publico o que quero, chamada “Mind what you wear”. Gosto muito da moda como veículo de expressão e comunicação. Sempre fui fascinada pela coisa de você usar a moda como se fosse um poster ambulante. Na rua você alcança todo mundo.

Comecei a Mind com camisetas, e em uma delas, que ficou famosa, estava escrito “allochtoon” que quer dizer imigrante.
Gosto de rôtulos que mexem de certa forma com as pessoas quando você lê a inscrição. Que mexam com os ícones do comportamento.
Processo de criação
“Tem muito a ver com a escola que frequentei porque a academia te obriga a criar e a pensar. Depois da Rietveld, acontece um milagre porque as idéias começam a aflorar. Talvez eles façam um lavagem cerebral. É como se fosse alguma coisa assim. Eles te obrigam a pensar. Quando ando na rua, olho as coisas de outra forma, e percebo mais. Acredito que todos nós podemos ter idéias -, essa coisa do inconsciente coletivo em que as vezes vejo um produto pronto, uma idéia que tive e penso! Mas já tive esta idéia! E uma pessoa do outro lado do mundo pensou na mesma concepção. Talvez seja plágio? Acho que nem é plágio porque as idéias estão flutuando, nós somos antenas e às vezes uma idéia pequena se torna imensa e vai tomando corpo e a gente nem imagina que dimensão ela vai atingir.
Atualmente aprendi mais a aceitar que somos antenas e que outras pessoas possam ter a mesma idéia. Quando eu fiz a bolsa “FAKE”, uma pessoa me escreveu dizendo ter tido a mesma idéia. Às vezes eu questiono um pouco essa coisa de direito autoral. Estou aprendendo a conviver com isso.
Com outras idéias, elementos e materiais, se forma uma outra história. Como os artistas performáticos que não querem dar o dever de casa pronto. Cada pessoa tem que ter suas respostas. Pode parecer muito cômodo, mas é assim que rolam as coisas neste mundo contemporâneo.”
A bolsa FAKE

“Quando começo um produto, penso primeiro em mim e em como quero usa-lo.
Embora a questão “fake” seja universal, eu estava à época em que a criei no Brasil e comecei a notar a grande quantidade de bolsas falsas pelas ruas e também em lojas. Com as novas tecnologias, ficou muito fácil copiar. A gente não sabe mais o que é natural ou não. Quando a gente vê, por exemplo, uma mulher bonita na rua, a gente não sabe se ela tem silicone, se colocou preenchimento, ou outro truque para torna-la mais atraente.
Esse dilema em relação às coisas “fakes” estão ficando mais acentuados. Só os valores é que mudam.
Fiz a primeira bolsa para mim e de repente, todo mundo queria compra-la. Até as pessoas que podiam ou queriam comprar uma bolsa original, sonhavam com uma “fake.” Uma bolsa sincera. Resolvi fazer várias e coloquei no meu site.
Não fiz publicidade. Estava la no meu site e foi um sucesso. Blogs especializados em moda gostaram da idéia e começaram a publicar; de repente, comecei a receber encomendas e emails do mundo inteiro de pessoas querendo comprar, jornalistas querendo publicar e fotografar.
Foi muito interessante o movimento. Isso aconteceu em 2004. Eu recebia encomendas do Japão de 100 bolsas. Era uma loucura porque eu fazia tudo artesanalmente. Ia na Galeria Pagé em São Paulo, comprava a bolsa falsa, colocava o silk screen que era super difícil, acontecia a intervenção e enviava aos compradores.
Continuei fazendo as bolsas até 2007 quando recebi uma carta da Louis Vuitton me ameaçando, querendo bloquear o meu site e dizendo que iam abrir uma ação contra mim. Reclamavam que eu estava vendendo um produto falsificado e utilizando a marca. É proibido vender réplicas -, pelos menos oficialmente.
A “fake” já participou de exposições em Chicago, em Amsterdam e Rotterdam, foi publicada em vários livros de design, mas ela não pode mais ser vendida como produto. Até hoje recebo emails de pessoas querendo compra-la, mas isso não acontece mais. Fiz um pacto com a Louis Vuitton para que me deixassem em paz e para que eu pudesse expor e publicar; então, quem tem a bolsa, que cuide bem dela!”
Os outros projetos
“Esse colar é de acrílico e fala sobre religião, que acho um assunto muito interessante e também tabu. Não tem aquela expressão que não se deve discutir sobre religião e futebol?

O colar fala sobre Deus. Quando vim morar na Europa me deparei com a falta de religião de muitas pessoas. Pelo menos no círculo que eu frequentava. Encontrei muitos ateus, principalmente na classe mais intelectualizada. Deus virou um “produto” do terceiro mundo. Eu quis refazer a imagem de Deus, fazer um remake, porque acho que Deus está muito antiquado.O homem evoluiu, mas Deus continuou com aquela imagem antiga da idade média. De controlador, de conservador, então a gente tem que fazer um remake. Não é que a gente queira acabar com a imagem de Deus. É difícil viver sem Deus. Por isso tem tanta depressão, tanta tristeza. Isso tudo por não acreditar Nele. No colar, combinei vários símbolos religiosos: judaísmo, islamismo, cristianismo, a mão de Fátima entre outros. Se eu fosse colocar todos, o colar ficaria enorme.

Estou desenhando uma coleção de brincos com o mesmo tema que deve sair a qualquer momento. Quero questionar as qualidades do “bem” e os defeitos do “mal”. Querem erradicar o mal que existe em nós, mas eu acho que não é por aí. Temos que encontrar um balanço entre o mal e o bem. Da mesma forma com a alimentação. Temos que combinar os alimentos para que a gente não fique na radicalização. O segredo da vida é saber o balanço entre o mal e o bem.”
Próximo projeto: soumaleducado.org
A artista está indo para o Brasil onde pretende criar algumas frases, fazer adesivos em relação à falta de respeito das pessoas com o espaço público.
“Aqui em Amsterdam a gente tem esta consciência. No Brasil as pessoas não respeitam este espaço e confundem muito o limite entre espaço público e o privado. Vou criar um domínio “sou mal educado.org“.
A partir deste site quero convidar pessoas a fazerem parte deste projeto. Quero iniciar a guerrilha do bom humor. Vou sair pregando soumaleducado.org nos carros que estiverem mal estacionados, que estiverem em cima das calçadas atrapalhando os pedestres. Acho que é uma forma de mexer, de chamar atenção.”

Visite site da artista
http://www.mindwhatyouwear.com/
Facebook page
https://www.facebook.com/pages/mindwhatyouwear
*Agradecimentos a Tânia, Denise e Sabrina do Basílico.
Basilico
Willemsstraat 29A
Jordaan/Amsterdam
Tel. 20 627 2685

