.Marcos Sacramento no Bimhuis com o show Na Cabeça.

Na Cabeça

Texto e fotos Margô Dalla

Na foto Neyde Lantyer e Cláudia  Trajano da fundação A Hora do Brasil

O festival The Brazilian Summer Sessions 2009, da Fundação A Hora do Brasil, abriu a temporada de shows na Holanda em grande estilo apresentando Marcos Sacramento no show “Na Cabeça”.

O show marcou o lançamento do quarto cd da carreira de Sacramento entre a França e Holanda. O cantor, um artista versátil com voz ritmada e forte, e atitude irreverente é com certeza uma das grandes vozes da atualidade.

No palco,  três importantes músicos/violonistas desta época, Zé Paulo Becker, Luís Flávio Alcofra e Rogério Caetano com violão de sete cordas. Quando conversei com Zé Paulo Becker ele explicou a importância dos três violões no palco e também sobre a turnee na Europa. É sempre muito bom voltar à Holanda com um novo show. A platéia é participativa e interessada em conhecer a música brasileira. Já havia tocado no Bimhuis com o Trio Madeira Brasil  nesse mesmo festival em 2007 . Nesta turnee,  estamos fazendo o lançamento do disco de Marcos Sacramento, “Na Cabeça”. Foram 5 shows na França e fechamos com este em Amsterdam. Agora é a vez do Brasil. Estamos voltando para lançar o “Na Cabeça” lá. Em relação aos três violões, a nossa idéia é trabalhar os instrumentos como se fossem um só. A idéia é essa. O pandeiro entra para dar um charme especial. Já no disco não colocamos percussão – só violão e voz, mas no show achamos melhor colocar alguma percurssão e então escolhemos o pandeiro. É um desafio tocar samba só com violões – mas esta é uma caracteristica do violão brasileiro de fazer um som com muito ritmo. O toque e a batida da mão direita fazem muita diferença;  essas características a gente tenta ressaltar neste show.

Os violões deram o toque de sofisticação e o pandeiro tocado por Netinho Albuquerque deu o molho ao concerto do contemporâneo sambista Marcos Sacramento na última quinta feira no Bimhuis em Amsterdam.

Considerado expoente da música popular brasileira cantando samba e revisitando clássicos de Noel Rosa e Cartola e contemporâneos como os cariocas Luis Capucho e Luiz Alcofra e o paulistano Paulo Padilha, Sacramento tem um jeito próprio de cantar - um jeito que o coloca como um cantor livre para ousar e reinventar o samba.

O concerto se iniciou com um solo de violões, depois Marcos entrou cantando a música “Calúnia” de Luiz Alcofra. Com seu jeito maneiro cantou “….agora separados por línguas ferinas, quando passas, sigo em surdina” e seguiu em frente passeando por canções revisatadas e inéditas com sua voz afinada e repertório criterioso. Em “Na Cabeça” de sua autoria com Alcofra, “…e o samba chega, uma batida doida e diferente...”. Na música Prisioneiros do Mar – maravilhosa canção de Luiz Arcaraz, don Marcotte e E. Cortazar com versão de Galvez Morales, cantou alguns versos em espanhol “….Ven mi cadena de amor a romper, a quitarme la pena de ser prionero del mar”. Quando interpretou “A Rosa” de Chico Buarque, diante de uma falha no som, seguiu em frente, sem microfone. Recomeçou, com microfone, e fez da música a grande apoteose do show. “…A fada, acaba com a minha lira, a gira, esgota a minha laringe, esfinge, devora a minha pessoa, à toa, a boa – que coisa mais saborosa”.

Quem esteve no Bimhuis pôde apreciar esse grande intérprete da música popular brasileira. Em seu primeiro trabalho solo - A Modernidade da tradição, o cantor se encontrou com o violão de Maurício Carrilho e com a percussão de Marcos Suzano e esse foi considerado o melhor disco brasileiro em 1997. Também neste ano de 2007 a prestigiada revista francesa Le Monde de la Musique o escolheu como melhor intérprete. Sacramento continuou sua carreira de sucesso e em 2007 foi indicado para o Prêmio Tim como melhor cantor de samba e para o Grammy Latino de melhor álbum samba. Em 2008, para o Prêmio Rival novamente como melhor cantor de samba.

No final do show, Marcos Sacramento nos concedeu uma entrevista e contou um pouco de sua trajetória e o que está acontecendo com ele neste momento.

Você está lançando este disco aqui na Europa. Como o público está recebendo este seu novo trabalho?

Você viu, não? Foi assim em todos os lugares que passamos. A gente fez uma temporada grande na França-nas principais cidades, Bordéus, Marselha, Toulon, Le Pradet e Paris. Tenho uma história com a França – sempre vou lá e a cada ano que passa o meu público aumenta. Esta noite foi uma surpresa maravilhosa – uma noite mágica aqui no Bimhuis. O disco “Na Cabeça” está agradando – tem uma sofisticação do violão brasileiro com o que existe de mais representativo nele, e o repertório é um resgate, e  são reprises de canções clássicas do samba, com um novo arranjo, uma nova forma de interpretação. Apresentei também algumas musicas inéditas. Esta é a primeira vez que estou mostrando um trabalho autoral e a aceitação está sendo 200%. Então, estou super feliz! Você viu aqui no Bimhuis hoje, as pessoas alegres e felizes entendendo o nosso som. Os violões eu quis trazer e mostrar a imponência deste instrumento. Nestes anos de carreira, a percussão foi muito usada em meus trabalhos, mas agora estou mostrando este aspecto rítmico do violão. A minha idéia era mesmo fazer um trabalho mais camerístico. Sem que isso fosse de caráter lento – é um disco que tem uma força grande – uma pancadaria, mas ao mesmo tempo tem a sofisticação do violão e principalmente destes violonistas, destes grandes músicos que estão comigo. Nós dividimos o palco . Eu dei uma sorte enorme de estarem comigo. Essa inquietaçao que a gente tem de estar sempre buscando novas tonalidades, novas cores para a nossa música, nos leva a lugares surpreendentes. Estou muito satisfeito com os resultados. Agora voltamos ao Brasil para lançar o cd “Na Cabeça”, lá.

Carioca de Niterói, mas morador de Santa Tereza, Marcos Sacramento sofreu enorme influência da Lapa – importante reduto de boêmios e do samba carioca.

O cd “Na Cabeça” tem 12 faixas que alternam conhecidas músicas da MPB como “Último Desejo”, de Noel Rosa, e “Sim”, de Cartola e A Rosa de Chico Buarque, canções que têm o próprio Sacramento como co-autor, caso de “Um Samba” e da faixa-título, e outras assinadas pelos violonistas que o acompanham, como “Calúnia”, de Alcofra”.

Oriundos de outros grupos de música, Alcofra foi integrante do Água de Moringa e seu trabalho se destaca também tanto como autor quanto como arranjador. Rogério vem do Clube do Choro de Brasília onde cresceu musicalmente junto com o bandolinista Hamilton de Holanda - que se apresentará no festival Brazilian Summer Sessões, no Bimhuis  em 1o. de julho - e Zé Paulo Beker é famoso por recriar sucessos populares em sofisticadas peças para violão. É também integrante do conjunto de choro Trio Madeira Brasil.

No show, me senti em uma autêntica roda de samba na Lapa e mais uma vez a cortina do Teatro Bimhuis se abriu para artistas brasileiros e para a espetacular vista do porto de Amsterdam.

O público, agradeceu a maravilhosa visão. Agradeceu também à Cláudia Trajano e  Neyde Lantyer, criadoras e criaturas da fundação A Hora do Brasil.